Fogo Fogo / Mira Mar

Fogo Fogo

Como o vulcão da Ilha do Fogo ainda recentemente tragicamente provou, há forças nas entranhas da terra cujo avassalador poder ainda desconhecemos e que não são possíveis de prever ou antecipar. O mesmo acontece na música. Apesar de hoje em dia se pensar que a música já não contém mistérios e que já não há nenhum recanto da memória por explorar, a verdade é que de vez em quando ainda surge uma erupção inesperada. Felizmente, no caso da música a única coisa que eventualmente pode ficar arrasada com tais fenómenos é a inércia. Caso claro: Fogo Fogo, o projecto de Francisco Rebelo (baixo), João Gomes (teclas), Márcio Silva (bateria) e Danilo Lopes e David Pessoa (vozes/guitarra) que regularmente tem explodido com incontrolável energia a pista de dança da Casa Independente, verdadeira instituição cultural a funcionar no Largo do Intendente, ao serviço de uma nova Lisboa.

A Lisboa que vê nascer estes Fogo Fogo é vibrante e especial: é uma Lisboa onde cabe toda a África, sobretudo a que fala português, tanto a do futuro, como a do passado. Uma Lisboa onde ainda é possível descobrir peças de colecção em vinil dos Tubarões e todas as obscuras pérolas de edição de autor que a diáspora de Cabo Verde gravou nos anos 80 e 90 no estúdio Musicorde de Campo de Ourique e que o mundo nunca ouviu. Essa é a Lisboa que, qual vulcão, expeliu os Fogo Fogo.

Como se começou por explicar, ainda há muitos segredos na música, muitos terrenos por explorar, apesar de haver quem acredite que já tudo está no YouTube. E um desses segredos é o funaná de Cabo Verde, da Ilha de Santiago. A editora Analog Africa, por exemplo, já deu bem conta da mais relevante memória do semba e da rebita de Angola em duas maravilhosas compilações que servem como uma espécie de história ancestral da música de um país que ofereceu o kuduro ao mundo. Agora, começam a aparecer sinais de que o funaná pode ser a próxima explosão das pistas internacionais: os Tubarões a terminarem em apoteose um concerto em Lisboa com um “Djonsinho Cabral” apoteótico; os Ferro Gaita a incendiarem a multidão num grande espectáculo no festival de músicas do mundo de Loulé; e, sobretudo, o regresso de Bitori (secundado por músicos de Bulimundo) aos palcos internacionais por mão de Samy Ben Redjeb da Analog Africa.

Tudo junto, isto significa que Fogo Fogo são uma urgente manifestação de uma cultura que, qual vulcão, está prestes a explodir. Os músicos envolvidos são ultra-experientes, profundos conhecedores dos múltiplos grooves de inspiração africana e atiram-se a funanás e a música de baile de festa africana no B.Leza ou na Voz do Operário como se 1987 tivesse sido anteonte. E neste contexto assumem a mais primordial das missões: fazer dançar sem truques, apenas com energia de bpms carregados, com a bateria e o baixo em permanente derrapagem e os sons inspirados na “gaita” (a concertina) a comandarem a identidade melódica. São cinco os temas neste ep – E Si Propi, Sentimento, Pomba, Cabra Preta e M’Bem Di Fora -, cinco pedaços de lava escaldante, gravados de forma intensa e directa. Os Fogo Fogo podem muito bem ser o acontecimento do ano que ainda ninguém descobriu. Mas depois da erupção, nada vai ficar igual.

MIRA MAR – Frankie Chavez + Peixe
Embora venham de diferentes latitudes e tenham experiências distintas, Frankie Chavez e Peixe estão unidos pelo seu trabalho com a Guitarra.
Peixe começou a dar nas vistas há mais de vinte anos, ao assinar o som musculado e inconfundível dos míticos Ornatos Violeta, mas isso foi só o princípio de uma longa e rica viagem. Seguiram-se os Pluto, as experiências delirantes dos Zelig, as mais do que muitas colaborações e o resultado de todo o estudo e exploração das possibilidades do seu instrumento de eleição em dois grandes discos a solo – “Apneia” e “Motor”.
Frankie Chavez tem-se afirmado, desde que se estreou em 2010, como um dos mais estimulantes músicos da sua geração. Inspirado pelo Folk, pelos Blues e pelo mais clássico Rock tem levado – quer sozinho, quer acompanhado – a sua música cada vez mais longe, tudo muito à custa da relação singular que desenvolveu com aquilo que foi sempre o princípio de tudo: a Guitarra.
Juntos e apenas munidos de um instrumento que se transformou na sua extensão natural, Frankie Chavez e Peixe, levam-nos a sítios onde nunca fomos e eles também não.
A sua música é rica, sem nunca ser excessiva. É coerente, sem nunca ser repetitiva.
É uma estrada que se percorre de forma contemplativa e que ora serpenteia até ao cume da mais alta montanha, ora se deixa ir planante, pelo calor preguiçoso do deserto, mas sempre a levar mais longe o som daquelas cordas que ressoam em diferentes caixas, com ou sem electricidade, e sempre como se os dois aqui fossem apenas um.

Ao vivo apresentam-se com imagens manipuladas em tempo real, destacando-se este “concerto-filme” na mútua inspiração a que ambos os universos (musica-imagem) se proporcionam e que o público facilmente absorve.

Texto – Pedro Tenreiro

Foto – Vera Marmelo

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Categorias: Música

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